Reflexões Práticas sobre Educação a Distância

Trabalho há quase 15 anos com Educação a Distância (EaD). Nesse período participei em duas disciplinas de um curso de especialização em Informática na Educação e criei e coordenei o ARL, um curso baseado fortemente em interação online e atividades para serem realizadas à distância e entregues e corrigidas via internet. Nesse interim, pude acompanhar diversos cursos ofertados na modalidade de EaD, avaliando ao menos que superficialmente a metodologia dos mesmos. Também tomei contato com uma série de leituras na área, podendo formar uma visão crítica sobre EaD. Mas eu acredito que a maior parte de minha visão sobre EaD atualmente advenha da experiência com o ARL e investigações sobre o formato de EaD adotado pela UAB.

Por conta desse histórico, eu não consigo não me sentir incomodado quando me deparo com visões preconceituosas e equivocadas sobre EaD. Quando não é o preconceito de pessoas com cursos, só porque os mesmos são via EaD, junta a visão incorreta sobre o que é um treinamento ou curso ministrado dessa maneira. Inicialmente é importante destacar que EaD na verdade é apenas um conjunto de metodologias, assim não é responsável, sozinha, pelo fracasso ou sucesso de um curso. Não é o fato de um curso ter sido feito via EaD que vai torná-lo melhor ou pior, mais fácil ou mais difícil. É apenas uma metodologia pela qual o processo de ensino-aprendizagem pode ocorrer.

Para exemplificar melhor, é importante dizer que em várias disciplinas presenciais já se faz e muito o uso de práticas rotineiras da EaD. Em minhas disciplinas da graduação presencial, por exemplo, eu solicito de meus alunos diversos trabalhos e/ou relatórios que não serão feitos em sala de aula e não serão corrigidos em sala de aula. Inclusive, em vários deles o resultado da correção é disponibilizado em um AVA (Ambiente Virtual de Aprendizagem), utilizado como suporte ao ensino presencial. Em algumas disciplinas presenciais também utilizo fóruns para discutir alguns temas das disciplinas.

Notem que essas atitudes não tornam o curso a distância porque a maior parte dele ainda ocorre em salas de aulas físicas. De qualquer maneira, no ensino presencial, esse tipo de prática não é questionado... Mesmo quando a maior parte da nota do aluno é obtida por meio de atividades realizadas fora de sala de aula. Assim, não é justificado o preconceito para cursos ministrados via EaD, não por conta da metodologia. Eu tenho orgulho de poder ter escutado de alunos no ARL que o curso feito por eles estava melhor que cursos equivalentes feitos presencialmente e em instituições reconhecidas (como Unicamp ou USP).

Por outro lado, como EaD exige uma flexibilização do ensino, no tempo e no espaço, ocorre que muitos acabam por distorcer o real significado dessa metodologia. Assim, se o preconceito não se justifica, também não se justifica o uso do termo EaD para tudo quanto é coisa encontrada na internet. Em minha opinião, para que um processo de ensino-aprendizagem possa ser chamado de treinamento ou curso online (ou via EaD), é extremamente importante que esse processo seja baseado em 3 elementos:

  1. Interação entre os participantes: eu aprendi que distância em EaD quer dizer apenas distância de tempo e espaço, mas não distância entre as pessoas ou entre aprendizes e professores. Assim, um curso via EaD pode ser mais presente que um curso realizado presencialmente, mas sem comprometimento dos participantes. E é a interação entre os membros do curso que vai garantir justamente que não existe uma distância nas transações. Essa interação, que pode ocorrer via fórum, chat, voz ou vídeo, deve tanto ser entre os próprios alunos como entre alunos e professores. A ausência de interação indica que o aluno está aprendendo sozinho, então não é curso ou treinamento, mas um tutorial, um estudo dirigido.
  2. Avaliação dos participantes: infelizmente são poucos os alunos, no ensino presencial ou a distância, que são suficientemente motivados a aprender algo sem precisarem ser cobrados por isso. Em um mundo cada vez mais dinâmico e sobrecarregado de informações, é extremamente fácil relegar a segundo plano o aprendizado de coisas que não nos são cobradas. Um participante que não é avaliado ou cobrado por parte de um professor tende a se desmotivar com um curso, à medida que o esforço exigido para o aprendizado aumenta. Sem isso, não é curso, é assessoria/consultoria.
  3. Roteiro das atividades: justamente porque é importante a interação entre os participantes e a avaliação por meio de atividades, é importante que haja um cronograma do curso. Um curso sem um roteiro tende a ficar confuso, com o aluno perdido, sem saber como se guiar. E infelizmente a maioria dos AVAs atuais auxiliam nessa confusão, pois deixam disponíveis aos alunos e professores uma série de recursos. Esses recursos auxiliam no processo educacional, mas também podem poluir a visão do aprendiz, caso este não esteja direcionado de alguma maneira dentro do ambiente. Sem um roteiro, não é curso, é fórum ou grupo de discussão.

Todos esses elementos são imprescindíveis para que se possa ter realmente um curso ou treinamento online. Sem um roteiro, um aluno não sabe o que seguir e o tutor não tem como guiar/orientar os alunos. Sem avaliação, o aluno faz apenas aquilo que julga importante, com uma visão incompleta do assunto, obtendo um aprendizado deficiente. Sem interação, não há avanço dos textos, não há discussão, não se fixa os conteúdos.

E por esses e outros motivos que quando vou ofertar um curso online eu informo a carga horária por aquilo que estimo do aluno médio. Ou seja: quanto tempo um aluno médio deve-se comprometer com o curso para poder aprender? quanto tempo esse aluno deveria se comprometer caso o curso fosse presencial? Infelizmente ainda não inventaram o conhecimento em pílulas, assim é necessário que o aluno se comprometa e dedique seu tempo para aprender, independente se o curso é realizado a distância ou presencialmente. Por exemplo, se eu informo que um curso meu é 40 horas e ele tem 30 dias de duração, então espero que o aluno médio se dedique em média 10 horas por semana para poder fazer o curso. Mais tempo ainda vai ser exigido desse aluno caso ele tenha dificuldades com a tecnologia envolvida ou dificuldades de aprendizado.

Assim, presencialmente ou a distância, não existe aprendizado sem uma dose de esforço e motivação. Se lhe puseram outra coisa na cabeça sobre cursos via EaD, então não é curso, é tutorial, consultoria, fórum de discussão, qualquer outra coisa, menos curso.

Comentários

Parabéns

São observações muito pertinentes Joaquim, principalmente para aqueles que pensam em utilizar EAD única e exclusivamente para redução de custos.

Parabéns

Parabéns meu amigo Joaquim Quinteiro Uchôa pela grande façanha na seara eduacional. Você é um grande intelectual e ajuda no crescimento deste na sociedade.
Abraços,
Aires